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APRESENTAÇÃO





estigma
do Lat. stigma < Gr. stígma, picada

s. m.,
marca;
sinal natural do corpo;
cicatriz;
marca infamante, labéu;


antônimo
do Gr. antí, contra + ónyma, nome

adj.,
diz-se das palavras de significação oposta;

s. m.,
palavra antônima.


epígrafe
do Gr. epigraphé

s. f.,
inscrição colocada no ponto mais visível de um edifício;
sentença ou divisa posta no frontispício de um livro ou de um capítulo, de uma composição poética, etc.






O idiota

"...Após uma longa ausência de São Petersburgo, o príncipe Míchkin retorna ao seu país.
Oficialmente sofre de um estado de depressão nervosa, o que serve para evitar equívocos quando à real condição do príncipe: este padece de uma forma totalmente idiota de ser, que se torna visível na mais pequena demonstração da vontade que carece ter. Consequentemente à falta de decisão e vontade própria, Míchkin tem uma confiança ilimitada naqueles que o rodeiam..."

Fiódor Dostoiévski


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APRESENTAÇÃO





Como conhecer um poeta? Nas angulosas linhas da sua face? No sangue que pulsa em sua carne? Nos olhos que não perdem uma cena da vida? É assim que se conhece um poeta?

Alexandre é assim. A poesia dele é tudo isso. É verdadeira, sutil, imaginativa, ardente, calorosa, viva e muito mais.

O nosso poeta amadureceu com o tempo e se tornou um homem responsável. A sua poesia também cresceu, cresceu geometricamente. O poema ficou mais profundo, mais sentido. O seu coração continuou ditando as palavras, mas as palavras se tornaram mais reais.

Os nossos encontros e desencontros pela vida, são cenas imodificáveis em nossas existências. E o poeta não as modifica e não as torna fugaz. Ele as descreve para nós com uma intensidade tamanha que parecem permanentemente vivas em suas lembranças. Claro que muitos dias nasceram em janelas desabitadas por seus amores, mas o poeta sobreviveu a todos esses desencontros... Até hoje. Porém, nenhuma nódoa do passado, ou dor sem desalinho, fez com que o nosso poeta esquecesse de revelar as suas emoções nas linhas de sua poesia. Essas sim transbordam emoções e sentimentos belos e verdadeiros. Transformaram-se os dias e as noites, passaram as pessoas e os desejos, mas para o poeta tudo é um começo de um recomeço que não tem mais fim...

Evandro Freire





Não se pode explicar o que não se vê, o que não é palpável, o que não é tangível. E a difícil tarefa de escrever sobre a poesia de Alexandre é se deixar levar por um mundo que é só dele, é traçar um paralelo entre o que é realmente verdadeiro e a realidade para este poeta.

Ele não se esconde em caminhos perceptíveis, são labirintos de sí mesmo, expressos em suas linhas de expressão, que ao longo dos anos, foram escorrendo por entre as veias e, enfim, da tinta para o papel.

Intenso como é, chego a pensar se já existiu o poeta sem poesia, um Alexandre sem metáfora, sem eufemismos e explicativas. E ele me conta que foi aos 15 anos de idade, óculos e incertezas, que começou a trilhar seu caminho em busca dele mesmo. E, exatamente 15 anos depois, lentes de contato e questionamentos, ele publica seu primeiro livro como quem disseca a própria carne.

A poesia de Alexandre é isso: viva, quente e pulsante. Lê-lo é se encontrar nas esquinas do sentimento cru, por inteiro. E aos pedaços ele vai se deixando espalhar em rimas, versos e textos. É diagrama quase palpável, anatomia exposta da emoção, com paixão, sofrimento, ansiedade e necessidade de expansão. Sua poesia coube em um livro, mas o poeta, vai se estender por muito mais páginas, por livros, enciclopédias inteiras, por ser um eterno pesquisador do eu mesmo, do que o motiva, o emotiva e o faz escrever.

Juliana Pessoa




"O Alieksandr usa a arma da reflexão que culmina prum humanismo com um viés de romantismo, de modo que acho interessante usar a pena para elevar a filosofia. Gostei, e quando ele não busca uma resposta que resuma o poema consegue ser melhor."

Paulo André Albuquerque



"A poesia do Alieksandr é de uma banalidade constrangedora...
Seus versos são banais, suas rimas certinhas e com muitas metáforas gastas.
Parece que não leu ou não absorveu o melhor da poesia moderna, de um Paul Celan, por exemplo, que abdica da retórica tradicional e do discurso horizontal... "

Jonathas Santana

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POESIAS





Sonho

Toda vez que sonho
tua boca beijar ,
meus olhos se fecham,
querem te encontrar.

Toda vez que sonho
quando estou acordado,
sinto-me um bobo,
um desajeitado.

Toda vez que sonho
contigo em meus braços,
acordo suado,
suspiro cansaço.

Toda vez que acordo,
e sou desprezado.
Lágrimas rolam,
me sinto um coitado.

Não sintas pena,
nem piedade de mim.
Só quero que penses,
... penses sim.

Em quem te ama
e te venera,
em quem te oferece
uma nova era.

Um tempo de amor,
tempo de prazer.
É tudo isto
que tenho a te oferecer.

Meu respeito, carinho,
paixão, enfim:
O que tenho a te dar
é um amor sem fim.

(1990)

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Amiga

Recesso de imaginação...
Na cabeça nada passa
mas tudo passa
em meu coração.

A batida acelera,
a pulsação aumenta
e eu me sinto uma fera
quando o desejo me tenta.

Ai que vontade de beijar-te,
teus cabelos percorrer.
Não de vez, mas parte a parte
o teu pescoço sorver.

Em tua pele sedosa,
depositar os meus beijos.
Numa carícia maldosa,
abrir a boca em bocejo.

Deslizar minhas mãos
por este corpo robusto,
sentir na ponta dos dedos
a firmeza do teu busto.

E nesses carinhos trocados,
carne a carne, corpo a corpo,
alguns são mais explorados,
até mesmo os que são poucos.

Mas de tudo isso que passa
no interior do meu peito,
só o que posso expressar
por inteiro é o respeito.
Pois toda esta atração,
erotismo e sensualidade
se tornam inexpressíveis
por conta da nossa amizade.

(1991)

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Revolta I

Cansei desse papo furado,
de dar uma de coitado
só pra chamar a atenção.

De ficar pelos cantos chorando,
pedindo, por Deus implorando
pra se notar minha paixão.

Eu tenho que agora ser homem,
deixar de ser pai e irmão.

Cansei de ser ¿bom rapaz¿,
de por mim tudo bem, tanto faz.
Esquecendo meu coração.

De ser o amigo perfeito
que pros outros tem sempre um jeito
mas acaba ficando na mão.

Já basta de ser cupido,
vou mudar de profissão.

Cansei de ser bem comportado,
garoto gentil, refinado,
¿o exemplo da educação¿.

Eu quero é ser cafajeste,
que digam: ainda que não preste,
ele é o maior gato, um tesão!

Sem essa de delicado.
Pra cima de mim? Essa não!

(1992)

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Castigo

Vem, Afrodite vem.
Vem descobrir o amor.
Quero dar-te carinho,
vem receber meu calor.

Corre, querida corre
pros braços deste sofredor,
que por ti quase morre,
não suporta mais a dor.

Porque sempre foges de mim?
Aversão, medo, rancor?
Porque tu escolhes assim,
sempre és caça e eu caçador?

Queria poder te provar,
queria ser vencedor.
Pois um dia de mim vais gostar,
querer-me com todo furor.

E um dia te ver suplicar,
pedir, implorar: Por favor!
Pra que então eu volte a te amar
e eu vou te negar este amor.

(1992)

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Ilusão...

Meus sonhos são o que vejo,
hoje são realidade.
Já que contigo, nos teus beijos
encontrei felicidade.

Antes meio sem jeito,
sem ter mais o que fazer
alojados em meu peito,
só me faziam sofrer.

Mas agora não mais fazem parte
de um passado perplexo,
de uma obra sem arte,
de um desejo sem nexo.

Deixaram de ser sonhados,
de ser sentimentos sofridos.
Foram concretizados,
agora eles são vividos.

Pois a vida pôde mostrar
que tudo supera a dor.
Que somos capazes de amar,
que a tudo vence o amor.

(1992)

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Sedução I

Quando vens ao meu encontro
com teu leve caminhar,
perco a noção do tempo,
do que é terra, céu e mar.

Imagino a tua boca
vindo a minha encontrar
e tua doce saliva
a minha sede matar.

Até sinto o teu toque
arrepiando-me os pelos
e tua mão sutilmente
percorrendo-me os cabelos.

Pois teu olhar tem um brilho
de tão belo indescritível,
teu sorriso tem carisma,
de tão lindo inesquecível.

(1993)

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Distante

Quando estou longe de ti
sinto no peito um vazio,
meu coração enrijece,
meu sangue torna-se frio.

Os olhos marejam-se em lágrimas
não sentindo a tua presença.
Na boca um gosto amargo,
choro preso por tua ausência.

Em revolta olho para os lados
(num grito mudo de dor)
meus punhos e dentes cerrados
já não contém meu amor.

(1993)

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Tormento

Andava confuso, disperso,
estava enlouquecendo, confesso
não sabia o que fazer.

E então me sentia vazio,
um cão vagabundo, vadio
procurava me esconder.

Perdi minha identidade,
fugi da realidade
que me acostumei a viver.

Andei por lugares escuros,
provei sentimentos impuros,
não tinha mais nada a perder.

Sofri, por você, demais,
perdi até minha paz
por não conseguir te esquecer.

(1993)

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Póstuma...

Ai que saudade de mim,
eu me perdi no passado,
passado desiludido
cheio, repleto de dores,
também de amores perdidos.

Ai que pena de mim,
dos meus olhos marejados,
do meu coração destemido
cheio repleto de flores
e de frutos mal colhidos.

Ai que raiva de mim,
de tudo que fiz de errado,
por ter sempre me ferido,
por ter passado horrores
nas vezes que estive caído.

Ai que asco de mim,
por não ter me aproveitado,
por não ter me arrependido,
de perdoar meus ofensores,
de esquecer meus inimigos.

Ai que medo de mim,
deste pulso parado,
deste peito carcomido,
dos vermes e roedores,
por enfim, de vez ter morrido.

(1994)

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Desejo II

Sinto falta e tenho saudades
daquilo que nunca tive,
mas que é presente
e ao mesmo se faz ausente,
pois em mim é sentimento que vive

Acordado, como sempre estou
se me vem as idéias saudosas,
imagino a púbis intocada
fazendo-se então marejada
por carícias maldosas.

Seguiria provocando,
tão sutil quanto voraz,
enquanto fosse escutando
sussurros suplicando,
pedindo de volta a paz.

E encontrar-me-iam dois pontos rijos
com firmeza e pontaria,
e sentiria juntos aos meus,
os teus mamilos
surgindo causando euforia.

(1994)

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Butterfly

Paira e baila com a brisa
por ela se deixa levar,
e eu de longe a observo
sem querer atrapalhar.

Segue assim o seu passeio
entre flores e jardins
e eu sonho, a desejo,
quero tê-la para mim.

Voa leve e insegura,
sem saber onde pousar.
E eu a chamo em meu silêncio
vem pequena... me beijar!

Mas a frágil borboleta
de asa anil e carmim
continua o seu bailar
sem se quer lembrar de mim!

Procura um tipo de néctar
que não sabe onde encontrar.
...voa lento, à deriva...
sem saber se quer achar!

(1995)

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Dorme...

Dorme, meu amor
dorme o sono do seu cansaço
que eu aqui sozinho faço,
penso, escrevo a minha dor
que por si é bem injusta
e em mim se faz angústia
em versinhos sem sabor

Dorme, amor, bem acolhida
por todos os anjos... amém
pois como eu, te querem bem
veneram e louvam tua vida.
sonha com o amor que te demos
e mata de inveja Vênus
por não ser assim querida

Dorme que fico acordado,
aguardo o teu despertar
ouvindo o tempo cantar
brincando de estar parado
Dorme, pois quando o dia chegar
vai então anunciar
que estarás de novo ao meu lado

(1996)

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Porque tudo é imbecil

Porque tudo é imbecil,
do sorriso leso
de uma boca sem dentes
aos passos lerdos
de um louco demente
e até mesmo eu
se me sinto contente.
Porque o mundo é idiota
com sua hipocrisia
sempre aparente
com a falsidade inumana
de sua gente
pois talvez até eu
ainda me julgue inocente.
E se é medíocre o que ama,
é porque um dia amando
se achou valente
por deixar para trás
tantos outros amores pendentes
e é assim como nós
burro, cego e inconseqüente.

(1997)

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Insomnia III

Frestas e buracos,
que percebo e procuro nas paredes
procurando preencher
esperando e esperando...
sempre continuo a esperar
que algo venha a acontecer.
Inquieto na impaciência
de inventar inconscientemente
o que eu acho que tem de ser ¿in¿!
pois nada disso tem a ver
com o que realmente gostaria de ter...
olho pasmado os meus cabelos
com as poucas curvas suficientes
para deixá-los despenteados.
Imaginando formas,
acreditando em desenhos que possam existir
a cada balançar da minha cabeça,
e a cada fio que eu reconheça,
me presto a afirmar que em nova procura,
não sou capaz de identificar
o que me está tão próximo.

(1997)

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Jogo

É névoa, como a que embaça
e me turva a vista.
e vai-se fugindo com o vento
quando me encheu os desejos.

Vem, encoraja, passa
e me abaixa a crista
submergindo em tormento,
dizendo não em bocejo.

Provoca me enche de graça,
negando me pede que insista,
resiste em seu pensamento
mas cede-me a boca num beijo.

(1997)

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Meu bebê

Tão delicado o bebê
que dorme tranqüilo ao meu lado.
Indefeso em seu cochilo,
sonha como que iludido,
deixando-me então pasmado
com sono tão merecido.
Sinto em teu sono alegria,
a paz que a tua face transparece.
Recobra-me o tempo perdido,
desperta em mim a libido
ao recordar a volúpia que o entorpece.
Quero niná-la de novo
quando estiver acordada.
Já nem me sinto cansado,
se vejo algo tão parecido...
com a felicidade,
é um anjo em meu colo adormecido.

(1997)

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O que sou?

Não sou mais côncavo que o convexo,
nem agudo nem circunflexo,
não sou retro... ou introspecto,
pois sobre qualquer que seja o aspecto
só quero que me deixem ser
o que eu nem sei o quê.

(1998)

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Sobre o amor

Quando o amor cai...
em desuso,
torna o carinho...
um abuso.
Por mais ainda...
que resista,
cede por fim...
à conquista.
Mas se o teu então
insiste,
tanto bate
até que fura,
é o porque o meu
existe,
infinito...
enquanto dura.

(1998)

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Bom dia

O galo canta...
anuncia um novo dia.
Coisas inesperadas e previsíveis para viver,
sonhos inimagináveis para ter...
penso nas aventuras de um novo dia,
de um dia como os outros
por ter a possibilidade de ser diferente,
por ter as esperanças latentes
e tantos problemas pendentes.
E apesar de tudo,
ser um bom dia para gente.

(1999)

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Menina da Lua

Menina, dá à lua a tua graça
e torna cheia a nossa noite
da maravilha do dia,
a luz , que cresce com tua alegria,
revigorando os nossos desejos,
renovando as nossas vontades.
deixa à míngua a tristeza
sem alimentar-lhe de lágrimas
e sorri esbanjando felicidade.

(1999)

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Gata

Há noites que me ronda
e ronrona desfilando mistérios...
e são nessas noites,
nossas noites de insônia provocada,
que me deixo em paz.
Já não penso mais em nada
que não sejam seus carinhos,
seus olhares,
sua boca...
pela minha molhada.

(1999)

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Lembrança I

Senti outro dia o perfume
e previ o teu cheiro doce,
então logo sorvi as idéias minhas
como se a ti fosse.
E pude ver-te surgir
tal e qual a memória me trouxe:
rápida, linda e fugaz
mas que pena,
foi pouco...
acabou-se.

(1999)

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Dú(í)vida

Tenho tudo o que mereço?
A dúvida tem o seu preço,
e ela me é companheira,
neste estado inconsciente
de me trazer consciência.

E se de mim me esqueço,
se por fim desapareço,
me esvaio que nem poeira,
nem louco, tampouco decente
sou limite da demência.

Na minha dor é que cresço,
na dor eu me fortaleço,
sua pronúncia traiçoeira,
é quem me faz ser vivente
me tirando a paciência.

Hoje sou meu recomeço,
ate meu fim já conheço
como a minha vida inteira,
e dele sou só semente
perdido em minha existência.

(1999)

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Culpa

Se te sentes na angústia
que precede a dúvida
e que amargura a vida,
a culpa não é minha.
Não sou eu o responsável
pelos beijos insípidos
cuspidos pela tua boca.

Se procuras a síntese
na antítese dos teus sentimentos
e nem sabes o que estás sentindo,
a culpa não é minha.
Não é meu esse abraço frio
conformado com a dor,
que não tem mais carinho.

Se adormeces chorando
temendo os sonhos
que te trazem abrigo,
a culpa não é minha.
Não sou eu quem acorda vazio
reclamando,
dizendo estar cheio de tudo.

Se tens medo da morte
e ainda assim
preferes morrer a cada dia,
a culpa não é minha.
Não sou eu quem insiste
em pôr fim e acabar
com as nossas vidas

Se já não me amas mais,
a culpa não é minha.

(1999)

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Eus
(e eu)

Por favor, eu, me desobrigue
de estar ante a minha presença
sai e largo-me aqui:
descrente das nossas crenças.
Sozinho em companhia
das tuas, minhas agonias
que não se separam se mim,
dos muitos que fomos um dia.
Saio e deixa-me ir
que velo atento o teu sono
dos já, não mais tanto, inocentes,
de inconseqüentes insanos
e trago-nos a minha mente
imagens de um outro agora,
memórias de um corpo dormente,
de um novo eu que foi embora.

(2000)

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Telefone ocupado
(favor ligar após alguns instantes...)

Estás ocupada para mim...
mas insisto, tento outra vez, persisto.
E me respondes assim:
"tut, tut, tut..."

Sou teimoso, não desisto.
Se desanimo, resisto.
... e o mesmo som enfim:
"tut, tut, tut..."

Para distrair, rabisco,
um outro traço, outro risco.
Mas o desenho sai ruim!
"tut, tut, tut..."

Os olhos? Quase não pisco.
Miro o aparelho e disco,
repito tim-tim por tim-tim.
"tut, tut, tut..."

O sono chega e me belisco.
e se não fosse por isto,
varava a noite,
pois sim!
"tut, tut, tut..."

...até o fim.

(2000)

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Ao sabor do vento...

Silêncio...
Sinta e perceba
os seus sabores,
são ruídos e cantos
dos nossos amores
Dance,
se deixe levar.
Seu ritmo embala
a volúpia que nos
faz amar
Toque,
Queira-o para si.
Pois sentirás meus braços
à noite quando for
dormir
Ouça-o...
sinta o seu cantar
é o sopro que anuncia
o desejo de me fazer
ficar...

(2000)

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Todos os amores em mim

Todos os amores em mim,
os quero sim
quero-os bons, os que são ruins.
Sem deixar nenhum para trás,
quero os de menos, quero os demais,
quero os que me dão dor e paz.
Quero o carinho e a doçura,
a chatice e a frescura,
quero o suor na noite escura.
Quero-os presentes os que estão distantes,
quero-os agora, quero os de antes,
amigas, mulheres, amantes.
Quero-os iguais e os que são diferentes,
puros, sacanas e indecentes,
est... sejam frios, mornos ou quentes.
Quero os amores do mundo,
os requintados e os vagabundos,
que sejam limpos, sejam imundos.
Quero os que se querem dar
com o amor de quem quer amar,
sem qualquer medo ou receio de errar.

(2000)

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Coragem I

Vem, amor, entra comigo.
Só um mergulho pode entrar.
Nem é tão fundo o meu umbigo
não há risco de afogar.
E quando tiveres subido,
vindo à tona respirar,
vai sentir quanto a instigo
a em mim, de novo, se embrenhar.
Diz amor, se foi castigo,
doloroso ou foi penar.
Emergir neste indivíduo,
nestes braços se abraçar.
E se foi, terei mentido,
pois te fiz acreditar
que faria então, sentido,
a loucura de me amar.

(2000)

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Eu
(só um)

sou extremo...
se escorro,
pois me espremo,
me socorro,
sou meu dreno.
se afundo,
pois mergulho,
volto ao mundo,
sem orgulho.
se me acho,
pois procuro,
sou meu facho
no escuro.
se me perco,
pois me cego,
sou o esterco
do meu ego.

(2000)

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Vestindo a roupa saí

Vestindo a roupa saí
Desci as escadas,
pernas apressadas,
o portão abri...
Subi pela rua,
ainda de costas nuas,
na calçada cuspi...
Apertei o passo,
no meu descompasso,
tropecei, caí...
me ergui num salto,
e de sobressalto,
me afastei dali...
Esgueirei-me nos cantos,
por todos, por tantos,
quantos me espremi...
Andei mais um pouco,
e teu grito rouco,
outra vez ouvi...
Sem qualquer virtude,
mais rápido que pude,
me apressei, corri...
E olhei pros lados,
com olhos cansados,
loucos pra dormir...
Quis sonhar de novo,
fui o meu estorvo,
e não consegui...
Por sentir-te perto,
que me fiz incerto,
do que não senti...
Não voltei atrás,
fui buscar a paz,
que me prometi...
Refiz meu caminho,
e agora sozinho,
me obrigo a seguir...
E nem sei se errei,
os erros é que deixei,
de admitir...
Vou seguir comigo,
sou meu próprio abrigo,
volto a me despir...

(2000)

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Coragem II

Por qual motivo esperar um dia,
um minuto ou o que seja...
Beber da melancolia
e se engulhar com a tristeza.
Para que se abster do óbvio,
esconder-se nos próprios medos
fazer do amor imóvel,
deixá-lo escorrer entre os dedos?
Não, não se deve espremer,
dar passos menores que as pernas.
Não há porque se conter,
quando o desejo se externa.
Não há o que temer, errar,
nem ascensão, nem queda,
pois quem nunca arriscou amar,
que atire a primeira pedra.

(2000)

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A voz da razão

Somente em absoluto silêncio
pode-se ouvir seu som...
A voz da razão é um sussurro,
que fere com estridência.
Fala lentamente, sem pressa...
e sádica, brinca com nossa paciência.
É imoral.
Desprovida de pudores.
E se desnuda desinibida
escrachando nossos valores.

(2000)

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Título

Estigmas e infelizes cicatrizes
dos suplícios, indícios do descaso,
no acaso da memória
da nossa história.
Antônimos homônimos que invento
em sentimentos dispersos
num universo de perspectivas
contrárias a toda e qualquer
expectativa.
Epígrafes grafadas, adulteradas.
Sementes do que se sente.
Desejos românticos,
tão tântricos quanto quânticos
trazem o sexo em anexo.
São o ópio do nosso próprio
querer...
nascer, crescer, entorpecer...

(2000)

• • • • •


Sobe... ?

Onde fui parar o amor?
Descobri-o estacionado,
Com os braços cruzados,
num elevador.
Olhando a porta se abrir,
indeciso sem querer descer,
nem saber subir...
esperando ¿o não sei o quê¿,
talvez, que o tempo pudesse dizer
a que destino seguir.
Havia em si um cansaço,
de dividir seu espaço,
sem puder distinguir:
Quem estava ali a passeio,
a que motivo veio,
e aonde queria ir...
Nisso ele ia subindo... dez vezes...
descia... sem deixar de observar
o tanto que ele perdia
por não saber onde saltar...
Talvez esperasse um chamado,
de um andar ainda não terminado,
ou que se fosse construir?
Permanecia calado, de lábios
cerrados...
como se, já acostumado,
pudesse um beijo cuspir.
E aí, subir para descer novamente,
sem reclamar, quase demente...
e eu o tentando a sair...
foi tanto o tempo investido,
que dei-me então por vencido,
quando pude reparar,
que tinha até esquecido
que eu havia também,
tantas vezes subido e descido
enquanto estava por lá...

(2000)

• • • • •


Olhos teus
(reposta aos olhos meus)

O que diriam os olhos meus dos teus (?)
Simplesmente nada...
E de pálpebras fechadas,
já saudosos da madrugada,
lembrariam do instante
em que te olhei como amante
e o teu olhar correspondeu.

O que diriam os olhos meus dos teus (?)
Calariam inconsolados...
E ainda, então fechados,
mal diriam o inacabado
ao qual o tempo nos impôs,
desejando o ¿um nós dois¿,
quando eu já seria você e você eu.

O que diriam os olhos meus dos teus (?)
Permaneceriam em silêncio...
Imaginando os quão mais intensos
seriam os futuros momentos,
olhares e beijos seguintes,
já não mais mendigos, pedintes,
quando o teu olhar seria o meu.

O que diria o olhar meu
do teu (?)
Se fosse este realmente
o adeus?
Diria: - Feche-se assim como eu,
e reviva cada lembrança,
alimentando a esperança de me ter
novamente teu.

(2000)

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À distância...

Não conheço os sorrisos,
os beijos, a boca,
o abraço,
nem senti o mormaço,
mas sei dos desejos,
das idéias loucas
e o desejo de paz.
Jamais senti o toque,
a leveza dos dedos
percorrendo os meus,
mas descobri os segredos,
as dúvidas, os medos
e neles também vi os meus.

(2000)

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Busca

Persigo o teu cheiro,
farejando o meu desejo
de te encontrar um dia
em meio a tantos erros,
com o sabor dos beijos
e o gosto da melancolia.

Procuro a tua voz
em declarações amorosas,
que me vem aos ouvidos,
e fico, por fim, a sós
com as lamentações saudosas
de amores perdidos.

E reconheço a ti
em cada um dos sorrisos
desses lábios e bocas tão belas
e a cada uma que ri,
deixa-me ainda mais preciso
que foste, és e serás
todas e(m) cada uma delas.

(2001)

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O beijo da gente

Quero o teu beijo,
cinematográfico, ardente.
Quero o beijo da gente,
de língua, molhado, indecente.
Quero tua boca,
teus lábios, teus dentes.
Quero beber da tua saliva,
teu doce, teu quente.
Quero sorver teu desejo,
e saboreá-lo calmamente.
Quero teus lábios por horas,
até que estejam dormentes.

(2001)

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Lembrança II

Ouvi no meio da noite
algo bem parecido
com um sussurro,
um gemido.
Assim como os que sopravas,
trêmula, ao pé do meu
ouvido.
E em absoluto silêncio permaneci,
com medo que outros pudesse
então, ter perdido.
E pedi mais uma vez,
que ao menos por este
instante, estivestes
de novo comigo.

(2001)

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Volúpia

Te quero beber
Com sede e sem pressa
Sorver cada gole
do teu beijo
como se fosse o último,
fazendo-o durar por toda a eternidade.
Mergulhar nos teus sussurros,
embriagado pelo ensejo
de saboreá-los com insensatez e voracidade.
E saciar minha fome de ti,
me alimentando do teu desejo
neste banquete de felicidade.

(2001)

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Branco

Branco,
imaculado e virgem...
tosco me ilude.
O papel a espera
de mim...
e das idéias
rudes.

Branco,
no escuro, medo e pavor
estampado nas caras
da virtude.
És luz, presença das cores
nos versos, que canto
amiúde.

Branco,
encardido, não importa
se eu o mude.
Alvejado em meu peito
ainda que me
desnude.

Branco,
vazio e imenso
em sua plenitude.
Ausência de qualquer
sentimento, pensamento
ou atitude.

(2001)

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Oferenda

Te ofereço uma bossa
eletrônica,
nem mais, nem menos...
Um melodrama
rítmico-hipnótico.
Esquizofrênico, patético,
caótico...
Ofereço-te uma idéia
biônica,
nem mais, nem menos...
Um pensamento
métrico-neurótico.
Cênico, hipotético,
protótipo...
Ofereço-te uma razão
hidropônica,
nem mais, nem menos...
Um sentimento
ético-simbiótico.
Transgênico, protéico,
macrobiótico...
Ofereço-te uma visão
randômica,
nem mais, nem menos...
Um futuro
profético-agnóstico.
Ecumênico, caquético,
catastrófico...
Ofereço-te uma noção
catatônica,
nem mais, nem menos...
Um exemplo
poético-filosófico.
Higiênico, estético,
claustrofóbico...

(2001)

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... insólita e solitária

Meus olhos refletidos
já não enxergam nada,
nada que não seja o teu reflexo.
Queria tirar do espelho
estas pendências sem nexo,
perpetuadas em noites
de insônia, insólita, solitária.
Esta carência do teu cheiro,
do teu beijo, do teu sexo,
provocada pela tua ausência
involuntária.

Meus olhos entorpecidos
já não enxergam mais nada,
nada que não seja devaneio.
Queria tirar do travesseiro
o falso amparo do teu seio,
que marcado em minha face,
me afoga no afago do teu fogo.
Onde mergulho e me lanço
sem medo, sem receio,
de que possa estar perdido
no teu jogo.

Meus olhos perdidos
já não enxergam nada,
nada que não seja o teu vulto.
Queria tirar do teto
o teu corpo como insulto,
projetado no escuro,
escarrado, encarnado de escarne.
Absorto do desejo
de adorá-lo absoluto,
e fazê-lo trêmulo,
triunfante em minha carne.

(2001)

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Crise

Assim como eu, a luz mudou.
Agora acesa, não desenha
as sombras com o mesmo
traço e não reconheço
o contorno frio-azulado,
quase escasso nas paredes...
... mudaram de cor como o
teto, os móveis, a cama...
que não me acolhe mais,
nem me chama.
Sinto falta do amarelo,
do quente, da incandescência,
da pele ilusoriamente
bronzeada pelos 100 watts de
potência.
E eu aqui racionando tempo,
eletricidade, sono...
me obrigando a economizar
neurônios, sem conseguir
deixar de me consumir.

(2001)

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Oco

Às vezes a solidão
me enche de um vazio
tão intenso,
que sinto-me oco
num máximo de plenitude.
Um misto de tristeza,
alegria e vontade de
chorar.
Às vezes sinto-me
tão frágil,
que meu próprio toque
me acalanta.
Dou-me um conforto,
que não quero
de mim.
... às vezes
sinto-me tão eu...
que me nego.

(2001)

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Nada importa

Não me importa
se o igual é diferente.
Preto ou branco,
é tudo gente.
Macho ou fêmea,
todos sentem.
Certo ou errado,
contanto que se tente.
Cru ou assado,
basta-me que alimente.

(2001)

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(... vazio)

... uma foto na moldura,
é um sorriso congelado
na lembrança,
sístole e diástole
de esperança.
Não faço idéia
do sábado que se aproxima,
nem do domingo,
nem da semana,
pois o fio de sentimento
que de mim emana
é dúvida...

Expiro, inspiro ou
paro?
Carrego, engatilho ou
disparo?
Assôo, engulo ou
escarro?

(2001)

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Cansado I

Tudo me interessa
e nada me distrai.
Estou deitado
na minha pressa
de me desligar.
Mofo curvado
no limbo do sofá,
num deslumbre
quase hipnótico
pelo que não me atrai.
Troco os canais...
com as idéias,
só com o olhar,
com um clique, num piscar.
E tudo diferente...
nada mais
à minha frente
permanece inteiro.
Desconcentro
e não penso em nada,
nada que não seja gente,
amor, espaço,
dinheiro...

tudo preto,
adormeci.
(atitude mais que correta quando se quer fugir)

(2001)

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Criança

ah criança, o teu olhar...
teu olhar e seus absurdos,
falam de coisas tão lindas,
me contam segredos
que me deixam mudo.

ah criança, o teu olhar...
teu olhar me serve de escudo,
protege das coisas ruins,
afasta de mim a tristeza
me cura do medo do escuro

ah criança, o teu olhar...
teu olhar me deixa desnudo,
me livra de todo pudor
num murmúrio, num sussurro,
acaricia qual veludo.

ah criança, o teu olhar...
teu olhar ainda que miúdo,
num sorriso, num piscar,
sem emitir um só som
já me basta,
teu olhar criança...
é tudo.

(2001)

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Outras vezes

Vez por outra,
tenho surtos hipnóticos
de efemeridade...
me distraio com o mundano,
mergulhando fundo
no que não tem profundidade,
pensando em círculos,
perdido em pieguices
numa pseudo-intelectualidade.
Vez por outra,
apelo para que a burrice
me invada...
que a ignorância e seus ruídos
emudeçam minha voz
e me deixem a mente calada,
que me livrem das dores
de consciência que o peso
da razão desaba.
Vez por outra,
me persigo investigando
motivos para felicidade...
cascavilho a memória
no equívoco de me provar
quão incertas são as verdades,
me afogando na angústia
de acreditar que o pensamento
é a porta da insanidade.

Outras vezes,
apenas vivo um dia após outro
e mais nada...

(2001)

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Insomnia IV

Quando durmo
e desperto do que é real,
entendo-me que viver
de sonhos só seria possível,
se ao nos induzirmos
a esta inconsciência plena,
cerrássemos os olhos de alívio
permanecendo tranqüilos
no convívio pacífico
dos nossos eus.

(2001)

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Provocação

provocação,
é o teu dedo em riste
à minha face.
ditador...
e, por mais que me ameace,
não me impede que o conquiste
numa dentada sem dor.

provocação,
é o teu nariz torcido
e arrebitado,
negando-me atenção.
petulante o desgraçado!
mas não me faz arrependido
de me ter em tuas mãos.

provocação,
é o teu vestido
e esse decote,
me enchendo de desejo.
esperando por meu bote.
ah... este seio escondido
será o alvo do meu beijo.

(2002)

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Vontade I

O que é vontade?
é o impulso que nos move
rumo ao absurdo,
que invoca o desejo
e provoca a realidade.
que é angústia diante
da impossibilidade
e se transforma em êxtase
quando tem capacidade.
que é o combustível
da impulsividade,
inimiga da racionalidade.

(2002)

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Vontade II

E se te revelo
as minhas vontades?
Alegarás insanidade?
Me prenderás numa
camisa de força?
Serás meu algoz,
chicote de minha sova?
Serás água
para matar minha sede?
Ou pá de terra
para tapar minha cova?

(2002)

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Júbilo

Sonhei que adormecia em teus lábios,
tenros e macios como nunca.
sugáva-os,
alimentando-me de sua doçura.
Sonhei que meus olhos, semi-cerrados,
pesados, buscavam os teus,
serenos e marejados de paz.
Sonhei que embriagado pelo teu beijo,
fascinado pelo teu olhar,
caía num sono de júbilo...
e o meu sono era bom,
brando e tranquilo,
tanto que desejei não despertar.

2003

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Vinho tinto

E joguei meu cálice ao chão!
(...)
Dá-me, meu amor, do teu vinho.
Beija-me a boca
num brinde de lábios entreabertos,
fluindo e refluindo teus sabores.
Dosa-me os prazeres
em gotas retintas de volúpia,
que me embriagarei de ti sem pudores.

(2003)

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Quero falar

Quero falar de saudade sem ser piegas
e dizer que ela tem sido o estímulo do meu desejo.
Quero falar, sinto falta, sem declarar ausência
e me sentir pleno de ti, ainda que a distância.
Quero falar de sonho sem ser impossível realizá-lo
e dormir cada noite no aconchego do teu colo.
Quero falar, te quero, sem parecer possessivo
e não te ter só para mim, mas, comigo.
Quero falar, te adoro, sem parecer infantil
e anunciar minha paixão ao mundo sem receio.
Quero falar, te desejo, sem ser fulgás
e te adorar mulher, sem precisar pedestais.

(2003)

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Amo-vos

Sempre a primeira vez...
Sinto-me assim, numa eterna descoberta.
Revelaste-me uma nova mulher
pela fresta de uma porta entreaberta,
ensaiando fotografias que
ainda hoje me alimentam fantasias.
Surpreendeu-me ainda mais
no desejo tímido de que a possuísse,
despudoradamente,
num palavrão imperativo.
Amo-te, meu amor.
A ti e a todas outras mulheres
que ainda guardares contigo.

(2003)

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Pesadelo

O menino voltou.
O rapazinho crescido, só tem tamanho...
Oh! coitado! Manteiga derretida.
Ele voltou.
Voltou a choramingar
lamentando as escolhas mal feitas,
aquelas, que não tem volta.
Voltou, querendo o seu lugar,
querendo colo, reclamando atenção.
Voltou, com seus braços compridos,
sentado no chão,
abraçado às pernas finas.
Voltou a escrever dissabores,
seus medos.
Voltou com seu olhar vago e triste.
Voltou.
Porque não quer separar-se de mim,
não quer que eu cresça.
Voltou para me dizer que nunca,
em momento algum,
deixamos de ser um o outro.
... e eu que pensei que ele
estava dormido, que tinha ido...
Mas ele voltou "assim"!
Espero que não fique por muito tempo.
Espero que vá embora logo.

(2004)

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Hoje
(como antigamente)

hoje, como num outro qualquer
e um pouco mais como nos de antes,
quando os dias eram (mais) angustiantes,
um grito em mim emudece, contido e pálido.
melhor que o mundo não saiba da tristeza
que se esconde (e está presa)
neste sorriso inválido.

(2004)

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Sobrevivente

o que passou, passou.
é um ponto além da linha do horizonte:
cardeal, bucólico, referencial.
tento me desvencilhar do passado,
sem querer desampará-lo.
guardo um olhar em sua direção.

o que passou, ficou.
é um rasgo aberto em linha reta:
dor, melancolia, saudade.
tento seguir adiante,
mas tanta luz ofusca-me os olhos.
os óculos escuros me protegem.

o que passou, não importa.
em que nos tornamos, é o que interessa:
cegos, surdos e mudos.
tento voltar a ser criança,
reaprender a andar e falar.
agora é tarde, já cresci.

(2004)

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Orvalho

Hoje sou tempestade,
chuva tropical, torrencial.
Sou água cortando o ar,
lâmina afiada rasgando o vento.
Quero fluir, molhar, inundar.
Tenho um trovão no peito
reverberando vontades,
prenúncio de furacão.
Sou deságue despudorado
dos meus desejos.
E apenas gota em tuas mãos.

(2004)

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Menininha

Avisto as janelas de tua'lma
e, atraído pelo pela órbita dos teus olhos,
deixo-me entrar.
abertas também, minhas janelas,
convido-te a um passeio
e te peço para ficar.
entra, te acomoda,
sai se for tua vontade
e volta se assim desejar.
tens trânsito livre
em meus cômodos,
do quarto à sala de jantar.
abra-me as gavetas do armário,
as portas da dispensa,
pega o que quiseres levar,
pois sinto-me em casa também.
corro em teu jardim, rodopio.
alegre quero brincar.
na rede do teu quintal,
deito-me tal qual criança
em pêndulo a me balançar.
e olhando-te na água de meus espelhos,
vejo nos teus, meu reflexo
encantado com teu olhar.

(2004)

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Estou lua nova

Discreto, introspectivo... implosivo.
Provocações externas não me atingem.
Estou atento aos embates travados comigo mesmo.
Estou sendo.
Nem passado, nem presente... estou gerúndio.
Descobrindo o meu caminho,
reconhecendo os meus espaços,
ampliando/delimitando os meus limites.

Vivendo.

(2004)

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Ícaro

apático, patético, profético...
proparoxítono apaixonado!
sou ícaro depois de quedas...
um mito, sem lógica e sem medo de voar.
o sol é o limite que persigo sem pena
a fim de conquistar meu espaço.
"meu coração está em órbita"
(parafraseando o nosso amor)
vôo aonde ele nos levar.

(2004)

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(des) Astro

Meu peito se comprime enquanto me espalho,
avanço em todas as direções
me distanciando do meu eixo no espaço.
É mais seguro ser satélite que cometa,
mais gratificante ser sol que planeta...

(2004)

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Il primo è vero

me sinto uma folha caída prematuramente,
ainda na primavera, verde perambulando,
me deixando levar pelo vento...
me sinto secando antes do tempo,
forçado a amadurecer (ou envelhecer)
fora do galho.

(2005)


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A última folha

Tantas vezes troquei a água,
outras tantas repeti,
para evitar que ela murchasse
e ainda assim, não consegui.

uma a uma, foram-se as pétalas,
bem-me-quer e mal-me-quer...
sem ser preciso tocá-las,
sem dar um sopro sequer.

dei-lhe luz e claridade
num vaso próximo à janela
e foi secando pouco a pouco,
suas folhas ficaram amarelas

ainda choro a minha dor
por não suportar a verdade:
se assim aceitou seu destido,
o fez por própria vontade

o quanto amei esta flor
a todos declaro sem medo.
o perfume, deixou saudade
os espinhos, um furo no dedo.

(2005)

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Acre

Estou seco.
Sou terra queimada, rachada,
chão duro de barro batido.
Sou quente, faísca afiada,
sertão, "escarrado e cuspido".

Para as mais aventureiras
que me quiserem cruzar,
alerto, mando um aviso:
Ainda há muito o que andar!

Pois mesmo que me espremam,
nenhuma gota escorrerá.
Sou areia, deserta paisagem
onde sombra de vida não há.

(2005)

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TEXTOS






Minha Vida

Uma vida por mais longa que seja, ainda não é o bastante para se viver tudo... e mesmo porque tudo é tanta coisa!
Mas legal é viver um pouco de tudo, pois assim não se tem a sensação de se ter vivido em vão... sem ter no que acreditar, sem ter tido alguém para amar, sem ter coisas a falar, sem ter, tem de ser, sem se dar...
Uma vida se passou ... duas, três ... mas e quantas virão? É lúcido ficarmos na "infância" das nossa idéias e sermos "fetos senis"? Vivemos as mesmas coisas, ou será que é daqui para frente que tornamos as nossas vidas sincrônicas, harmônicas, com verdadeiros sentidos?
Vivemos as nossas vidas de uma maneira certa?
E o que é o certo nas nossas vidas?
Decerto a única certeza que tenho, é que as lembranças por mais vivas e latentes, nao são suficientes para se reavivar uma vida.
Por isso, sigamos vivendo!

(1998)

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Prazer em conhecer...

...existem também muitos outros mundos em nossas vidas, em nossas cabeças, em nossas idéias...alguns tão nossos, tão malucos e tão fantásticos em sua originalidade que chegam a despertar fascínio nas pessoas que vivem a parte deles.
São por esses mundos que as pessoas se encontram, se envolvem e mergulham umas nas outras, em busca do inimaginável, do inesperado, do fantástico, do surreal... e assim se constroem várias outras histórias, outros mundos, outras viagens.
E a gente nunca sabe bem o que vai encontrar, ainda mais quando nem se sabe ao certo o que procurar... se é que estamos conscientes desta procura.
E quando encontramos o que a partir de agora se tornou indispensável? Quem nasceu primeiro, o essencial ou a essencialidade? Impossível distinguir...
Tudo muito maluco não é?
Mas é tudo assim mesmo...

(1998)

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Verdades e Mentiras

... quais são estas verdades?
Se é que existem!
Quero descobri-las, mas a ânsia de me desmentir e buscar as próximas me embaçam.
As verdades agora, revelam-se mentiras que em outros instantes, poucos atrás, eram sinceras. Verdadeiramente realidades equivocadas.
Me agradam as dúvidas. São em maioria as únicas certezas. Me agrada quando as verdades revelam incertezas... incertas mentiras.
E o que me faz vivo é buscar desmascarar-me. Sem mediocridade, inconstância, sem fuga da realidade... apenas por inquietude. Por ser, estar e permanecer inquieto. Sem aceitar e me conformar com meias verdades, mentiras sinceras; sem baixar as orelhas a primeira dose, ao primeiro trago, ao primeiro beijo... a tudo aquilo que entorpece.
Me sinto bem por me sentir questionado. Me questiono para me sentir vivo. Vivo para me sentir bem.
Sentir, sentir, me sentir... ébrio, sedento e desejoso de vida. Das verdades e mentiras que se revelam umas nas outras.
Seguir questionando sempre, duvidando e acreditando na minha sede. Vivendo sempre no limite entre o não ter limites e a impossibilidade de me limitar, somente, a tudo que por convenção é verdade e mentira

(2000)

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No oneway

... sim, o amor recicla-se.
Transforma-se.
É sentimento mutante assim como as nossas necessidades... mas não deixa jamais de ser amor. Romântico, fraterno, maternal... sempre amor, independente de como se sinta.
Há fatos acontecimentos, pessoas (e por que não dizer amores) que são inclassificáveis.
Todos tem a sua singularidade, mas apenas alguns não fogem da lembrança, não se misturam nem se perdem com o vento.
Não se perdem porque são puros, desprovidos de vícios, de egoísmos. Libertos de toda espécie de cacoetes e de tudo que deriva dos "falsos pudores"... Do medo e da ilusão de que na vida se "precisa ter" para poder estar bem.
São inclassificáveis porque são simplesmente
vi-vi-dos sem medidas nem questionamentos, dúvidas ou receios. Inclassificáveis porque são surpreendentes, inusitados, inesperados.
Inclassificáveis pois tudo que tende ou deriva de dor, sofrimento, tristeza, angústia é caso comum... é o que se perde.

(2000)

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Nana Nenen

Houve um dia em que inquietude era o meu conforto.
Então agarrava-me a ela para sentir-me vivo, fazendo dela a razão de minha existência.
Não sentia-me só, pois a tinha como companhia. Mostrava-me os caminhos que desviavam da mediocridade. Alimentando minha dor e angústia, mantinha-me de olhos abertos, com a mente e língua afiadas.
Porém, não permitia que pudesse expelir as idéias e verdades que me revelava, pois haveriam sempre outras, e outras que viriam superar as anteriores e torná-las verdadeiras mentiras. A já chamadas verdades equivocadas.

(...)

Numa noite adormeci (como em vezes anteriores) cercado pelas minhas inquietudes e despertei sozinho depois de tantas outras noites mal dormidas. Acordei antes, pensei em chamá-las, mas não resistí a curiosidade de ficar observando o seu sono. E tão encantado fiquei, que decidi deixá-las em seu leito...

Deste então velo o seu sono confortavelmente.
E hoje, o meu conforto é a minha inquietude.

(2002)

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Perfeição

Não sabia o que era perfeição, mas a procurava onde pudesse existir.
Nos sorrisos, nos lábios.
No bom dia, na boa noite.
Nas paradas de ônibus, nas salas de espera.
Na ida e na volta para casa.
Umas vezes sorria, cumprimentava, fazia de conta que ia e vinha por acaso. E ia e vinha... ao acaso.
Noutras fingia um olhar distraído para o lado, na tentativa de alcançá-la num destes desconfortáveis e fortúitos momentos, onde se disfarça e desvia o olhar, logo em seguida ao flagra.
Ensaiava este movimento inúmeras vezes, sabia da precisão exigida pela simulação. Por isso mesmo, para não correr o risco de deixá-la escapar, virava o rosto com um sorriso já engatilhado... que morria antes mesmo que o giro completasse os 90º! Não a enxergava mais a sua frente.
Queria encontrá-la mas não sabia com que se parecia. Queria ver e saber. Simplesmente identificá-la. Chegar e encontrar.
Como num saguão de aeroporto, onde ela, portando uma plaqueta em letras garrafais, onde se pudesse ler "EI, VOCÊ!", estivesse a sua espera.
Não desistia.
Era assim que planejava o seu encontro.
Estrategicamente casual.
Perfeito.

(2002)

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Contando carneiros

Espera estúpida, esta minha.
Enquanto todos já dormem, eu espero.
Ligando o ventilador quebro o silêncio. Assim passo o tempo tentando decifrar a música que ele toca.
Imaginando uma melodia qualquer, sei lá. Tentando identificar um ritmo, encontrar uma similaridade qualquer a qualquer coisa que seja.
Me canso.
O som não tem mais graça, já faz parte do silêncio. Tudo perde um pouca da graça depois de algum tempo.
Depois que não conseguimos diferenciar um segundo do outro e todos os "TIC-TACs" tornão-se apenas "TICs"
constantes e repetitivos. Assim como o som do ventilador. Apenas um ruído em "loop". (preciso me distrair com outra coisa).
Olho para a parede. Branca e uma mancha de sangue... Um tom de cinza nas arestas que encontram o teto.
Em todas as quatro. São sempre quatro. Olho para o teto. Acho a lâmpada. Fixo o olhar até poder vê-la reproduzida mesmo de olhos fechados.
E se a desligo, ela ainda está lá onde quer que eu olhe.
Lembro-me, já a "descasquei" em outras linhas:
"...não reconheço o contorno frio-azulado..." e "Sinto falta do amarelo, do quente, da incandescência..."
Gosto disso é bonito. Acho realmente que ficou bonito. Era bem o que sentia naquele momento. Falta de cor.
Mas as cores não falam, nem gritam. Também estão em silêncio agora que apaguei a luz.
Agora até as cores dormem. E eu aqui, no escuro esperando o sono chegar.
Espera estúpida, esta minha.

(2002)

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Sexta-feira

Naquela manhã sentiu-se diferente, estranho... e ao abrir os olhos viu a sua cama vazia... sob um ângulo diferente... distante... depois de alguns segundos constatou que a cama continuava no mesmo lugar... mas ele, estava no teto!
Foi então quando percebeu que flutuava em seu quarto.
Pairava por sobre a cama e os lençois escorriam ainda presos em suas pernas.
Havia morrido? Não, bobagem... de jeito nenhum! Tirando a surrealidade da situação, nunca havia despertado sentindo-se tão vivo.
Estava sim... mais leve! Como se durante a noite tivesse aspirado todo o ar de seu quarto, não de toda a casa, do prédio... de todo o mundo! Talvez por isso sentisse uma pressão enorme no peito.
Sentia-se inflado, cheio de um ar, cheio de vida.
Tinha ido dormir cansado, quase despencou, uma pedra. Uma viagem única, profunda, com sonhos repletos de flashes do dia anterior.
... acordou naquele estado!
Sentia-se leve.
Experimentou tocar a parede com o dedão e empurrar de leve.
Podia mover-se e, apesar de não ser um quarto espaçoso, nadou de parede à parede e em todas as direções. Dava razantes pelo chão e mergulhava em direção aos sapatos, às roupas jogadas e de tão perto que chegava, pôde enchergar o parafuso dos óculos que perdeu dois dias antes.
Então, balançando os braços de baixo para cima, num movimento típico de desenhos animados, pôs-se de pé.
Calçou os chinelos.
Estalou a coluna.
Passou as mãos nos cabelos e teve a certeza:
Estava apaixonado.

(2003)

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Sonâmbulo

Sempre que os ouço, chamo-os pedindo que me ninem.
Os anjos e seus cânticos, algo indecifrável.
Seus sons, vozes e trombetas me acalmam, porém, não o suficiente esta noite.
Penso nela.
Recordo nosso último encontro, o anterior e o anterior...
Mais um pouco e numa cronologia decrescente volto ao primeiro, num saudosismo quase indolor.
São eles, são os anjos me induzem à imersão.
E agora sou quase um sonâmbulo que, ao invés de adormecido num corpo em movimento, está desperto num corpo que não se meche.
Apenas a lembrança trabalha, fazendo uma retrospectiva dos nossos beijos.
Calculando a progressão de sua intensidade desde os primeiros até os mais recentes.
Alguns inesquecíveis, como o que nos fez adormecer um nos lábios do outro.
Sim, nós dormimos num único e profundo beijo.
E naquele momento, os anjos também estavam lá, cantando para nós.

(2003)

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Desabafo

A necessidade de completá-la é que me deixa vazio.
Por mais que eu saiba que não tenho como atender a todos o seus desejos (e nem devo), acabo me culpando e me sentindo mal com suas cobranças.
Ela sabe que me exige demais (talvez assuma esse excesso tentando não me desanimar), eu concordo, brigo, e não relevo.
Não consigo....
Quero ser tudo para ela, mas sem a pretenção de ser o maior, melhor e mais importante...
Quero que ela me ame com tudo e por tudo que eu sou, e que o meu modo de amá-la lhe seja bastante e a satisfaça.
Queria muito que ela amasse o meu jeito de amá-la, que entendesse.
Queria que minhas atitudes fossem suficientes, mas sempre falta algo. Sempre alguma coisa não é feita de forma correta. Sempre uma crítica. Sempre uma represália. Sempre uma desconfiança. Sempre que eu não estou com ela...
Como seu eu não fosse dono do meu nariz, como se eu não fosse um indivíduo, individual, único, particular a mim mesmo.
Como se as minhas escolhas não pudessem ser boas para mim, só para mim.
Como se eu não pudesse ter vida sem ela, nem escolher o que é bom para esta vida.
Como se eu devesse amá-la acima de todas as coisas, e tivesse que amá-la cada vez mais, e ainda mais, e mais...
Como se eu não tivesse mais direito a ser eu sem ela.
Ela me quer em absoluto e me colocar numa redoma, para atender somente as suas necessidades.
... e eu me contamino.

(2004)

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Alieksandr Míchkin
Estigmas, Antônimos e Epígrafes de uma Antologia Poética sem Título